sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Amortecimento

 

coração

“Por que vocês não conseguem sentir esse centro vital em seu íntimo? Por que precisam tatear tão intensamente para sentir algo que está no fundo de vocês? Por que ele ficou tanto tempo oculto de vocês? Por que vocês só conseguem encontrá-lo indiretamente? O fato é que o que um dia foi um choque, vocês começaram a anestesiar, a amortecer. O maior infortúnio que um ser humano pode experimentar não é a mágoa, como vocês agora sabem. É a ausência de sentimentos, o amortecimento interior. Em alguma ocasião, esse amortecimento teve o intuito de proteger. Proteger contra a dor, o medo e o desconforto com os quais a pessoa não era capaz de lidar. Naquela ocasião, quando a pessoa era muito nova, essa pode ter sido, de fato, uma solução temporária, pois a mente imatura, com suas limitações, certamente não está equipada para enfrentar e manejar determinadas experiências emocionais e entendê-las de maneira realista. Assim é necessária uma anestesia temporária para a criança sobreviver. No entanto se ela continuar, é efetivamente um processo muitíssimo prejudicial.

Quando algo vivo é amortecido, impermeabilizado contra a reação, toda experiência se interrompe. Esse amortecimento é o que cria a desesperança que todo ser humano sente em certo grau. Isso pode ser bastante consciente ou estar oculto da consciência. É sem dúvida, a maior cruz que se carrega.

Como eu disse, o amortecimento atenua a dor e o medo. Mas ao fazê-lo apaga a própria vida. Torna imóvel o que deve se movimentar. O fenômeno de morrer no mundo físico e material em que vocês vivem é uma expressão de muitas atitudes interiores. No decorrer das nossas palestras falei de uma série delas. Uma das mais importantes é o desejo de não se mover. Isso pode ser comprovado por muitas pessoas. Ele se expressa na percepção de vocês como preguiça, inércia, apatia, até mesmo na percepção consciente de não querer fazer as coisas, não querer mexer o corpo, a mente, os sentimentos. Vocês não querem se lançar na vida, na experiência. Essa atitude gera amortecimento, portanto em última análise, o fenômeno da morte física. Como a vontade e a atitude da pessoa são sempre a causa de todos os acontecimentos externos, também é assim com o fenômeno terrestre universal da morte física. É um resultado direto de não querer sentir, portanto ficar morto, não se mover.

Quando o centro vital é amortecido, o desejo de mover-se também morre. Vocês podem ver por si mesmos que à medida que as pessoas envelhecem, diminui sua vontade de movimentar-se. Em geral as pessoas encontram uma explicação: “bem, esse é um fenômeno natural do envelhecimento.” Mais uma vez, há uma inversão de causa e efeito. O envelhecimento por si é um processo de morte, é uma manifestação e efeito, não a causa. A morte é resultado de, em algum lugar e de alguma forma, não querer viver, rejeitar aspectos da vida, como sentir, respirar, movimentar-se. Se e quando uma entidade, em sua evolução, atinge o ponto em que abraça e aceita a vida totalmente, com todos os seus aspectos, a morte deixará de existir. Qualquer pessoa que tenha medo da morte deve procurar entender essas palavras num nível profundo de experiência pessoal. Deve descobrir a parte de si mesmo que deseja não estar viva, não se mexer, não sentir. Quando então, ela descobrir sua própria rejeição à vida, deixará de sentir a impotência do medo da morte. Alguma coisa vai mudar a esse respeito.

Vocês também podem observar que os seres humanos que permanecem jovens por muito tempo não perdem a vontade de se movimentar. É errado afirmar que eles não perdem esse desejo pelo fato de permanecerem jovens por muito tempo. O correto é afirmar que permanecem jovens porque continuam a querer se movimentar. Quem não quer se movimentar precisa entender a razão, que é o que expus aqui.

O medo de se movimentar pode ser determinado de maneira relativamente fácil depois que vocês se questionarem a esse respeito. Assim que vocês deixarem de encontrar explicações para afastar as coisas e fizerem a si mesmos perguntas simples, dando as respectivas respostas, será fácil tomarem consciência do seu medo do movimento. A princípio pode ser que sintam como um simples desejo de ficar mortalmente imóvel, o que de fato não é absolutamente prazeroso. O prazeroso é estar vivo e se movimentar. Quando descobrirem o seu medo de se movimentar, a sua falta de vontade, relutância ou resistência ao movimento – do ponto de vista físico, mas também mental e emocional – terão descoberto a razão de viverem em uma esfera da consciência onde a morte é inevitável. Vocês apressam a morte na medida em que rejeitam o movimento em todos os níveis do seu ser. O movimento é rejeitado porque o movimento desperta o amortecimento. Quando o centro vital é temido porque não se sabe lidar com a dor e o medo, supõe-se que o amortecimento é a solução. E o movimento elimina o amortecimento portanto ele é rejeitado sem que se saiba que o não movimento é o início do processo de morte.

Aqueles de vocês que recentemente tiveram contato – muitos pela primeira vez – com um centro vital até então amortecido sabem que experiência incrível é. Primeiro, vocês sentem dor. Mas à medida que aprendem a aceitá-la (esta ou outra emoção que apareça), também descobrem a enorme diferença entre dor e dor, entre medo e medo, entra raiva e raiva. É a diferença entre uma emoção aceita e uma emoção rejeitada. A emoção aceita não é nem a metade tão dolorosa ou angustiante. Jamais gera ansiedade, tensão, desesperança, amargura, tormento. Jamais coloca vocês numa armadilha de onde não há saída. Jamais fecha a vida. Mesmo quando vocês sentem dor, existe vida em vocês borbulhante, maravilhosa, vida pulsante e a alegria está logo “por trás” da dor, na perspectiva de possibilidades ilimitadas. A dor aceita na verdade não é assustadora, não confunde, não causa conflito. É, ao contrário, muito revitalizante. Quando vocês ousam aceitar esse sentimento, seja qual for e vão mais fundo, ele se transforma. Embora a dor continue lá, ao mesmo tempo vocês se sentem incrivelmente vivos, maravilhosamente vivos. Pouco a pouco, a dor cede lugar totalmente ao prazer. Segurança, esperança, nova experiência – tudo isso está disponível, tudo está iminente, mas apenas através daquilo que já existe em vocês.”

( O Guia. Palestra 167: O CENTRO CONGELADO DA VIDA TORNA-SE VIVO)

Essa é uma das palestras que eu mais gosto no pathwork. Ela esclareceu muitas coisas sobre mim. Muitas mesmo. Esse amortecimento foi algo que eu fiz grande parte da minha vida. Eu realmente me congelei para atenuar o medo e dor. Então por experiência própria posso afirmar que o que está escrito aí é verdadeiro.

Uma coisa que aconteceu comigo foi um não querer viver experiências novas.  Um querer continuar na rotina, uma forte resistência a mudanças. E durante um tempo eu fiquei realmente sem esperança. Ela de certa forma havia morrido em minha vida. Eu não queria voltar a sentir. Para que eu iria sentir se o que eu sentia na maior parte do tempo era rejeição,medo, desesperança, tristeza, ansiedade? Eu realmente não via vantagem nenhuma em sentir. parecia mesmo que a melhor saída para mim era o amortecimento.

Mas ninguém fica amortecido eternamente. Mais cedo ou mais tarde os sentimentos reprimidos e negados vêem a tona. E comigo isso aconteceu. E eu tive de aprender a lidar com eles. Não dava mais para fugir.

E eu descobri que a forma mais eficaz de lidar com qualquer tipo de dor é a aceitação. Posso garantir que o que o Guia diz nessa palestra é verdadeiro. Há uma enorme diferença entre a dor aceita e não aceita. Porque quando não aceitamos lutamos contra. E quando lutamos contra a dor cresce. Lutar contra não funciona.  Então além da dor original ainda temos a dor da frustração de não conseguirmos elimina-la.

Uma coisa que me ajuda muito e lembrar que a vida e mutável. Sendo assim nada dura para sempre. Inclusive a dor. Quando aceitamos a dor ela se transforma. Ela não sobrevive muito tempo onde há aceitação.  Não sei explicar bem o motivo. Talvez pela dor não ser alimentada se temos esse tipo de atitude.

O que eu posso afirmar sobre isso tudo é. A não aceitação torna a dor insuportável. A aumenta e fortalece. Faz parecer que a melhor saída é o amortecimento. Mas a verdade é que o amortecimento faz você estar morto mesmo estando vivo fisicamente.

A aceitação torna a dor suportável, permite que você lide com ela de forma eficaz e saia no final mais fortalecido. A cada dia percebo mais a importância da aceitação.

Um comentário:

  1. Oi Luciana.
    Vou tentar lidar com meu medo de coisas novas!!
    Post publicado na Teia.
    Até mais.

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